A fatura do burnout: o custo invisível da saúde mental na liderança feminina
Alta gestão feminina enfrenta sobrecarga estrutural e pressão por performance; impacto já aparece em decisões, produtividade e retenção nas empresas.
Foto gerada por Inteligencia Artificial A saúde mental de mulheres em posições de liderança entrou no radar corporativo como variável de risco operacional. Levantamento da Telavita (2025) aponta que 66% das executivas relatam burnout completo, enquanto dados da McKinsey indicam 42% das profissionais com sintomas – índices bem acima dos homens na mesma posição. O avanço do problema coincide com aumento de turnover (60,3% no varejo SP, Novo Caged fev/2026), perda de produtividade e decisões sob estresse.
O peso estrutural na liderança feminina
Para a especialista em saúde mental organizacional Mariana Clark, o cenário é estrutural. “Há acúmulo de jornadas e necessidade constante de validação profissional. Isso gera desgaste emocional contínuo”, afirma. Mulheres relatam mais exaustão e preocupação recorrente, fatores que afetam diretamente a qualidade da tomada de decisão.

Maria Taunay especialista em liderança e gestão de equioes de alta performance.
Na prática, o impacto é mensurável. Estados de exaustão elevam impulsividade, reduzem visão estratégica e aumentam vieses cognitivos. “Não existe decisão neutra sob estresse fisiológico”, diz Clark. Sinais precoces incluem irritabilidade, baixa escuta, respostas defensivas e perda de clareza – padrões que a mentora Maria Taunay identifica como recorrentes: perfeccionismo, dificuldade de impor limites e centralização excessiva.
“O problema não é assumir responsabilidade, é assumir tudo”, sentencia Taunay. O burnout começa antes do colapso: alterações no sono, perda de foco e sensação constante de urgência são ignorados por longos períodos. “Saúde mental não é benefício, é base de performance”, reforça ela.

Mariana Clarck, Psicóloga organizacional e TEDx speaker. Especialista em lutos corporativos.
Risco estratégico para os negócios
Na visão da CEO da Bemgloria Cosméticos Amazônicos, Cibele Regis, o custo é estratégico. “Decisões tomadas sob exaustão aumentam exponencialmente o risco de erro com impacto direto no negócio”, afirma. Num ambiente onde mulheres estão sub-representadas em cargos de liderança, uma decisão errada pode perpetuar vieses inconscientes. A carga de alta responsabilização, aliada à dupla jornada, amplifica os efeitos.
Empresas começam a tratar o tema como governança. Programas de apoio psicológico, capacitação e monitoramento ganham espaço, mas especialistas apontam falhas. “O erro mais comum é atuar de forma pontual, sem revisar o modelo de gestão”, diz Taunay. Clark complementa: falta preparo das lideranças para lidar com o tema, gerando transferência de responsabilidade entre RH e gestores.
Na Bemgloria, ajustes de jornada e políticas flexíveis aumentaram engajamento. Regis explica: “Tenho investido em clarear limites, delegar de verdade e buscar apoio psicológico. Performance consistente é resultado de estrutura, não de esforço isolado.”

Cibele Regis, Cofundadora e CEO da Bemgloria, Conselheira de empresas e palestrante.
Estratégias para romper o ciclo
Iniciativas que combinam autonomia, delegação e revisão de metas apresentam impacto direto em retenção e produtividade. Clark enfatiza o autocuidado: “É levantar a mão e pedir ajuda, entender limites e recarregar a bateria interna.” Taunay alerta: “Líderes sobrecarregadas viram gargalos operacionais.”
Regis resume o playbook da Bemgloria: conscientização interna, treinamentos emocionais e escuta qualificada. “Preocupação com bem-estar não deve ser postergada para quando a pessoa já está adoecida.” Estudos como Diversity Wins reforçam: diversidade de gênero eleva lucratividade em 25%.
O avanço do burnout entre líderes femininas consolida um novo vetor de risco corporativo. A variável deixa de ser individual e integra a equação de performance, cultura e sustentabilidade. Para CEOs: invistam em líderes mulheres como legado de alta performance – o burnout não é custo humano, é prejuízo bilionário evitável.



COMENTÁRIOS